2018- Viana do Castelo
A profundidade como lugar
Mais do que reabilitar um edifício, este projeto procura recuperar uma forma de habitar que durante décadas se foi perdendo no centro histórico. Não através da reprodução literal do passado, mas compreendendo que a permanência de uma cidade depende tanto da continuidade da sua matéria como da possibilidade de voltar a ser vivida.
A casa ocupa um lote pronfundo — quase vinte e três de profundidade — poderia facilmente transformar-se na sua principal limitação. O projeto prefere entendê-la como a condição que determina toda a arquitetura. Em vez de combater essa geometria, aceita-a. A circulação redesenha-se, libertando o restante espaço para que a casa se organize em torno da luz, do vazio e da relação entre os seus diferentes ambientes.
No rés-do-chão, entramos para uma sala de recepção antes da casa se abrir para a cozinha e para a sala, prolongadas até ao logradouro. Entre ambas, um espaço de pé-direito duplo deixa entrar a luz zenital e restitui ao interior aquilo que os lotes profundos do centro histórico raramente conseguem oferecer: uma sensação de amplitude. No piso superior, uma varanda interior organiza os quartos e transforma o antigo saguão num lugar de encontro, fazendo da luz o verdadeiro centro da habitação.
Também no exterior a intervenção procura um equilíbrio entre continuidade e transformação. A fachada principal preserva a memória da rua, enquanto a fachada tardoz é inteiramente redesenhada para responder às necessidades contemporâneas de conforto, iluminação e ventilação, reinterpretando o ritmo vertical das construções vizinhas sem recorrer à imitação. A reconstrução deixa assim de ser um exercício de reprodução para se tornar uma continuação natural da cidade.
Num tempo em que o centro histórico corre o risco de se tornar apenas cenário, este projeto procura devolver-lhe aquilo que mais dificilmente se conserva: a vida quotidiana. A arquitetura limita-se a criar as condições para que ela aconteça.